sábado, 25 de outubro de 2014

A ARTE ENTRE O REAL E A FICÇÃO

Vicente de Percia
                             “O Correio”, Rio de Janeiro, ano VI, nº 146, 2002
                             A Arte Entre o Real e a Ficção.
                                   Vicente de Percia                  
Nos anos 6o, artistas insistiram em utilizar-se de imagens, ready made, tentando conseguir espaços respeitável no circuito das artes.Era uma fixação onde o discurso falado predominava sobre o visual.De certo modo, deixava-se de lado a criação do domínio do conhecimento técnico e as tendências onde o suporte dessa postura estava em alegar que a pintura morrera,assim como os atelieres tradicionais,gravuras,desenhos etc...
Neste período, paralelo ao “novo discurso” pouco visual, surgiram criações voltadas para a Pop Art e europeias ligadas ao Novo Realismo. No Brasil, a produção artística se distanciava, em parte, das teorias americanas e do velho mundo que exerciam influência mundial com a Pop Art. As criações brasileiras acoplavam concepções com a arte popular e a história brasileira.
A brasilidade afastava a ironia e o cool que os artistas Liechtenstein e Warhol davam as suas obras. No geral, percebiam-se influências da nova onda nas artes plásticas nacionais. As regras estéticas de imagens de fora escondiam-se no termo abusivamente usado de “universalismo” e preenchiam os catálogos das exposições,principalmente,no eixo Rio/São Paulo.
Em meados dos anos 70, o crítico do Correio Brasiliense, Hugo Auler, elogiava o artista plástico Vicente Souza, cuja paixão era absorver a cana de açúcar. Destacava-o imprescindível naqueles instantes conflitos políticos sociais. O mesmo ocorria com o renomado artista Rubem Valentim num texto de apresentação na Oscar Seraphico Galeria de Arte em Brasília: “No momento em que a arte brasileira surge viva e polêmica com os equívocos inevitáveis de falsos e habilidosos buscadores de “raízes”, é com satisfação que vejo na pintura de Vicente de Souza, uma esperança de autenticidade. Sua seriedade, experiência e acúmulo de informações darão sua dimensão própria para no futuro que acredito seja, juntamente com outros com as mesmas motivações à conquista de uma imagem que caracteriza o Sentir Mestiço do povo brasileiro”.
A década de 70 solidificou um diálogo entre a ficção dos valores estéticos formais – cores, volumes, o transito entre o figurativo, abstrato e o geométrico. – e uma realidade voltada para as culturas da terra brasilis. Aliado a Vicente de Souza (canacultura), paralelamente se destacavam: Antônio Henrique do Amaral (bananacultura),Humberto Espíndola(bovinocultura).Outro artista entre o seu mundo repleto de particularidades e de Metáforas brasileiras é Farnese de Andrade.suas criações juntam “coisas” repletas de emoções e peculiaridades concretas significativas.
A arte integrada a aspectos econômicos brasileiros foi um dos enfoques na obra de Vicente de Souza, artista plástico do Amapá, residente  em Brasília e No Rio de Janeiro,onde foi assassinado em 1986 no bairro da Tijuca.Prêmio de Viagem de Viagem do Salão Nacional de Arte Moderna  e participante da bienal de São Paulo,entre outras presenças marcantes no Circuito da Arte,seu núcleo temático é a cana de açúcar em figurações que extrapolam os limites  agrícolas e adentram –se em nossa realidade social.
Já que, desde o Brasil Colônia, a cana de açúcar tem relevo na economia nacional ,a canacultura de Vicente de Souza vevencia a nossa Historia.Traz para a tela o olhar arguto sobre cenas que,para muitos,seriam indicações fugitivas.Seu traço junta qualidade de sentido,gerando um tipo de magia poética que fluí,de seu ar mestiço, bem brasileiro.
O processo econômico e agrícola da cana é por ele observado desde a semeadura, passando pelo surgimento dos colmos das flores em pendões terminais até a colheita e a industrialização, incluindo aí os derivados. Quando menino ele admirava os trabalhadores e professores, foi enviado pelo governo de seu estado para estudar na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Com o aparecimento de novos elementos, vindos da monocultura, moveu-se com desembaraço em nossas raízes, sem se tornar retórico.Há uma maneira muito sua de ordenar as formas da cana com traços expressivos ou pele têmpera,que acentua valores de textura,de sensibilidade dos gestos.Optando por um jogo de possibilidades,Vicente de Souza atinge um humor crítico,mexendo com problemas sociais.
Pertencente ao ciclo social das artes plásticas impôs um pensamento político aos anos 70. Em suas telas, a cana de açúcar e seus desdobramentos transfiguram reflexões bem brasileiras, em meio  a diversas formas estéticas de expressão.

Vicente de Souza – Memória – O Ciclo Social e a Canacultura

Nada mais coerente que o tempo para assimilar a produção artística. Legitimar do ponto de vista crítico de imediato é correr risco, principalmente no circuito das artes plásticas. Os apelos constantes do novo causam equívocos e com eles danos difíceis de serem corrigidos.
O indivíduo saturado de informações precisa repensar para não ser direcionado por uma dinâmica que pode levá-lo a desmobilização envolvendo-o num clip de ritmo e pensamentos apressados.
Por outro lado podemos dispor de dados para avaliar períodos no tocante a essa aceleração, coletando informações precisas e com isto trazendo à tona conceitos e diferenças contidas na própria história.
Hoje é possível afirmar o posicionamento contrário da Art Pop em função do subjetivismo e hermetismo moderno; a contra partida em denunciar nas artes, a vida farta de signos estéticos e massificados.

Dando ênfase à reflexão através de ciclos, assistimos que para alguns estudiosos o pós-moderno aparece quando a bomba atômica é lançada em Hiroschima durante a II Guerra Mundial em agosto de 1945. Outros atribuem seu nascimento a partir do termo usado pelo historiador Toynbee por volta de 1947.

Foto: Obra do artista Vicente de Souza - técnica: tela, tinta acrílica., título: " Interferências 1986. Prêmio de viagem do Salão Nacional de Arte Moderna.

domingo, 21 de setembro de 2014

O SÉCULO QUE VIVEMOS E SUAS IDIOSSINCRASIAS

Se a mídia funciona como instrumento de estimulação e de legitimação hedonistas, contribui, paralelamente, para destilar uma situação de insegurança, amplificando os temores cotidianos: medo alimentar, medo de vírus, da pedofilia, da obesidade, da violência urbana, da poluição. Quando liberado da sujeição ao coletivo, o indivíduo acha-se cada vez mais submetido aos poderes do medo e da inquietude:
Pelo sensacionalismo, a mídia constitui uma extraordinária caixa de ressonância dos perigos que planam sobre nossas existências. Por um lado, a mídia mergulha no lúdico e nas distrações superficiais; por outro lado, não pára de intensificar as imagens de um mundo repleto de catástrofes e de perigos. (LIPOVETSKY, 2004: 76-77).
As grandes mobilizações de caráter emocional só podem ser compreendidas se vinculadas ao triunfo dos valores hedonistas, lúdicos e psicológicos amplamente veiculados pelos sistemas de comunicação (LIPOVETSKY, 2004). Para estes, a espontaneidade dos afetos, a vida no presente e a liberdade nos engajamentos adquiriram uma legitimidade de massa.

Um "manual" de instruções para as escolhas

O indivíduo moderno precisa de boas razões para seguir seu Deus e suas crenças, afirma Chagas. No entanto, além dos diferentes deuses e crenças religiosas de que dispomos, hoje, como medidas paliativas para nosso mal-estar, temos inúmeras outras ofertas de orientação para a vida. Elas determinam o que devemos fazer para evitar medos, incertezas e insuficiências. "Elas oferecem, além de outras coisas, a quem procura o auto-conhecimento, a receita da felicidade plena, 'aqui e agora', 'na Terra'." (CHAGAS, 2001:25).
Em relação à reflexividade constituinte da sociedade moderna, consideremos, como explica Giddens (2002), que o indivíduo vive uma biografia reflexivamente organizada em termos do fluxo de informações sociais e psicológicas sobre os possíveis modos de vida. A modernidade representa uma ordem pós-tradicional que suscita constantes decisões sobre o comportamento, representadas por questões referentes ao que vestir ou ao que comer, por exemplo. Essas decisões fazem referência à auto-identidade. Giddens alerta para a consciência relativa que a identidade do eu pressupõe: é aquilo de que o indivíduo está consciente no termo "autoconsciência". A auto-identidade é algo que deve ser criado e sustentado rotineiramente nas atividades reflexivas do indivíduo.
No nível do eu, a escolha funciona como um componente fundamental da atividade cotidiana. Giddens aponta para o fato de que todas as tradições são efetivamente escolhas entre uma gama indeterminada de padrões possíveis de comportamento, mas que, por definição, a tradição, ou os hábitos estabelecidos, ordena a vida dentro de canais relativamente fixos. O indivíduo deve fazer escolhas referentes a seu estilo de vida , é obrigado a fazê-lo. Cada uma das decisões que uma pessoa toma diariamente contribui para as rotinas que determinam estilos de vida. Todas as escolhas são decisões não só sobre como agir, mas também sobre quem ser.
Padrões gerais de estilo de vida são menos diversos que a pluralidade de escolhas disponíveis nas decisões diárias e mesmo nas decisões estratégicas de prazo mais longo (GIDDENS, 2002). Um estilo de vida envolve um conjunto de hábitos e orientações, tendo determinada unidade que liga as opções em um padrão mais ou menos ordenado. Estando comprometido com determinado estilo de vida, o indivíduo necessariamente avalia várias opções como inadequadas a ele, da mesma forma que julga os outros com quem interage. Além disso, a seleção ou criação de estilos de vida é influenciada por pressões de grupos e completadopela visibilidade de modelos, assim como pelas circunstâncias socioeconômicas. Como envelhecer melhor, dormir melhor, relaxar e comer melhor são questões apontadas por Lipovetsky como solucionáveis pelos mais variados livros que funcionam como guias para um indivíduo que quer soluções eficazes e técnicas para os diversos problemas e questões da vida.
Como descreve Chagas, o sujeito moderno tem o desejo de ser o único e o melhor de todos. Essa é uma crítica que, de certa forma, acompanha o raciocínio de Bauman e Giddens. Ora, se cada indivíduo tem a ambição de ser o melhor e se o discurso de auto-ajuda alimenta essa ilusão, inevitavelmente verificamos a ineficácia dessa promessa, já que, obviamente, nem todos podem ocupar posições vantajosas, pelo menos não a todo o mundo e em qualquer âmbito.
O surgimento de novos estilos de vida afeta a produção, o trabalho e o cotidiano de cada indivíduo. Os valores se transformam e tornam obsoleto para hoje aquilo que valia ontem, da mesma forma que o futuro próximo pode desmerecer aquilo que valorizamos agora.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

OS IMPASSES ENTRE INFORMAÇÕES, ARTE E ÉTICA



As coisas que nos rodeiam ativam-se através de contínuas informações. Resulta daí uma avalanche de “comunicações”, visando a implantar no público opiniões, cujo objetivo também, inclui a demanda de determinados produtos.
As artes plásticas não fogem a tal contexto, cercadas que são de intensa propaganda, objetivando divulgar e institucionalizar certos segmentos que se propõem enquadrar na tão sonhada  “contemporaneidade”. Aliais, tal atmosfera, ajusta-se perfeitamente dentro da crise de valores que o mundo e a Arte vivem continuamente.
No dia-a-dia não existem respostas objetivas ou pesquisas coerentes por parte da imprensa que levem o público a aproximar-se de resultados concretos em relação à tarefa artística. É preciso, pois despertar o interesse ou o questionamento sobre as múltiplas criações em voga, usando uma metodologia para instigar o espectador com propostas estéticas que o induzam à reflexão.
Nos noticiários não há um confronto de opiniões, um diálogo de visões acerca de cada objeto artístico exposto, e,sim,uma exaustiva e contínua concordância, o que se torna uma postura estranha para um período tão complexo como o nosso de tantas improvisações e crises.
Na década de 60, a ideia que prevalecia era que a ciência pura poderia ser reaproveitada no domínio da tecnologia. As “obras de arte” procuravam mostrar uma interação entre os dois âmbitos e o artista cedia seus propósitos criativos aos novos materiais oferecidos pela indústria. Era o vigor das luzes,dos efeitos visuais, das transparências em primeiro plano.
E agora diante dos impasses contemporâneos, como estabelecer uma visão ética coerente, que não minimize os valores individuais do Homem e, ao mesmo tempo, desperte para o usufruir das novas oportunidades que a ciência lhe oferece? Como estabelecer esta interlocução criativa, em que os dois setores - a Arte e os artefatos técnicos – em fraterna harmonia, não percam o valor intrínseco inerente a cada uma das partes?
De imediato, convém situar que o novo nem sempre e o melhor e vice-versa, principalmente quando direcionamos a avaliação crítica em função do fato estético
A alta tecnologia e a eletrônica poderão estar presentes na criação, porém sem se distanciarem dos princípios éticos e dos mistérios  que envolvem  cada ser em sua total humanidade.
          Vicente de Percia
 “O Correio”,ano IV, Nº 140,rio de Janeiro,2002

quinta-feira, 15 de maio de 2014

CUIDADOS ESPECIAIS COM OS GRÃOS

O livro de Jeremy Rifkin [ver referência acima] é uma ambiciosa tentativa de formular nova narrativa para a utopia que desabou junto com o muro de Berlim, em 1989. Sua profecia mais ousada é que o capitalismo entrará em irreversível declínio ao longo das próximas três décadas. Ele não será substituído por aquilo que costuma ser considerado seu oposto, ou seja, a propriedade estatal dos grandes meios de produção e troca, orientada pelo planejamento central.
Seu declínio não passará tampouco por mãos hostis, por processos de expropriação ou por eventos épicos como a tomada do Palácio de Inverno. Na verdade, o eclipse do capitalismo já está desenhado e decorrerá do avanço simultâneo da 00 e da economia colaborativa.
Não se trata de fé ingênua no poder da técnica: a ampliação das oportunidades de oferecer bens e serviços a partir da cooperação direta entre as pessoas (e cada vez menos, do mercado) depende do fortalecimento da sociedade civil e esbarra na gigantesca força dos interesses que procuram sempre limitar o alcance dos bens comuns (os commons, em inglês). Mas, diferentemente de qualquer época precedente, a produção e o uso de bens comuns conta agora com dispositivos cada vez mais poderosos. É nessa unidade entre a cooperação social e as mídias digitais que está a base para uma sociedade moderna, inovadora, colaborativa e descentralizada, funcionamento não se apoia nem nos mercados, nem na busca individual do lucro.
Jeremy Rifkin é professor de uma das mais prestigiosas escolas de gestão dos Estados Unidos, a Wharton. Além disso, é consultor de vários governos europeus e empresas globais. Como tantos outros intelectuais americanos, adotou postura crítica com relação ao papel das finanças na crise de 2008, apoiando o Occupy Wall Street. O mais intrigante neste seu último trabalho está no título: custo marginal zero é uma espécie de quadratura do círculo para a sabedoria econômica convencional. De fato, as primeiras páginas dos manuais ensinam que a natureza econômica dos bens e dos serviços deriva de sua escassez. É por serem escassos que os produtos são alocados por meio dos preços. A abundância generalizada (como bem o observaram, mesmo que sob enfoques diferentes, Marx, Stuart Mill e Keynes) conduziria a uma organização social com mecanismos totalmente diferentes dos que marcam a civilização atual.

terça-feira, 13 de maio de 2014

XENOFOBIA NA EUROPA

 
Partidos xenófobos podem eleger dezenas de eurodeputados, em 25/5. Esquerda não conseguirá enfrentá-los sem retomar laços com as populações empobrecidas
 
Uma coisa é certa: as eleições europeias do final de maio trarão um aumento notável do voto de extrema direita. E incorporarão ao Parlamento Europeu u número considerável de novos deputados ultradireitistas. Atualmente, eles se concentram em dois grupos: o Movimento pela Europa das Liberdades e da Democracia (MELD) e a Aliança Europeia de Movimentos Nacionais (AEMN). Juntos, reúnem 47 eurodeputados – 6% de 766 cadeiras1. Quantos serão, depois de 25 de maio? O dobro? Um número suficente para bloquear as decisões do Parlamente Europeu e, em consequência, o funcionamento da União Europeia?2
A verdade é que, desde há vários anos e em particular desde que se agudizaram a crise da democracia participativa, o desastre social e a desconfiança diante da União Europeia (UE), quase todas as eleições nos países do bloco traduzem-se numa irresistível subida da extrema-direita. As recentes sondagens de opinião confirmam que, nas eleições de maio, poderia aumentar consideravelmente o número dos representantes dos partidos ultras: Partido pela Independência do Reino Unido, UKIP (Reino Unido)3; Partido da Liberdade, FPÖ (Áustria); Jobbik (Hungria); Aurora Dourada (Grécia); Liga Norte (Itália); Verdadeiros Finlandeses (Finlândia); Vlaams Belang (Bélgica); Partido da Liberdade, PVV (Holanda); Partido do Povo Dinamarquês, DF (Dinamarca); Democratas de Suécia, DS (Suécia); Partido Nacional Eslovaco, SNS (Eslováquia); Partido do Ordem e a Justiça, TT (Lituânia); Ataka (Bulgária); Partido da Grande Roménia, PRM (Roménia); e Partido Nacional-Democrata, NPD (Alemanha).
Na Espanha, onde a extrema-direita esteve no poder mais tempo que em qualquer outro país europeu (de 1939 a 1975), esta corrente tem hoje pouca representatividade. Nas eleições de 2009 para o Parlamento Europeu só obteve 69.164 votos (0,43% dos sufrágios válidos). Ainda que, normalmente, ao redor de 2% dos espanhóis se declare de extrema-direita (o que equivale a uns 650 mil cidadãos). Em janeiro passado, dissidentes do Partido Popular (PP, conservador) fundaram o Vox, um partido situado à “direita da direita” que, com jargão franquista, recusa o “Estado partidocrático”, defende o patriotismo e exige “o fim do Estado das autonomias” e a proibição do aborto.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

MANIFESTO PAU BRASIL

Há 90 anos, surgia documento que, ao questionar “discurso do colonizador”, abriria caminho para a Antropofagia. Eis o texto
Por Oswald de Andrade | Imagem: Theodore de Bry, Cena de Canibalismo 1592
A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.
§ § §
Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.
§ § §
O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.
A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.
§ § §
Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.
A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, critica, donas de casa tratando de cozinha.
A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.
§ § §
Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.
Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Agil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.
A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.
Uma sugestão de Blaise Cendrars: – Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino.
§ § §
Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.
§ § §
Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.
Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.
§ § §
Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. Instituíra-se o naturalismo. Copiar. Quadros de carneiros que não fosse lã mesmo não prestava. A interpretação no dicionário oral das Escolas de Belas Artes queria dizer reproduzir igualzinho… Veio a pirogravura. As meninas de todos os lares ficaram artistas. Apareceu a máquina fotográfica. E com todas as prerrogativas do cabelo grande, da caspa e da misteriosa genialidade de olho virado – o artista fotógrafo.
Na música, o piano invadiu as saletas nuas, de folhinha na parede. Todas as meninas ficaram pianistas. Surgiu o piano de manivela, o piano de patas. A pleyela. E a ironia eslava compôs para a pleyela. Stravinski.
A estatuária andou atrás. As procissões saíram novinhas das fábricas.
Só não se inventou uma máquina de fazer versos – já havia o poeta parnasiano.
§ § §
Ora, a revolução indicou apenas que a arte voltava para as elites. E as elites começaram desmanchando. Duas fases: 1ª) A deformação através do impressionismo, a fragmentação, o caos voluntário. De Cézanne e Malarmé, Rodin e Debussy até agora. 2ª) O lirismo, a apresentação no templo, os materiais, a inocência construtiva.
O Brasil profiteur. O Brasil doutor. E a coincidência da primeira construção brasileira no movimento de reconstrução geral. Poesia Pau-Brasil.
§ § §
Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.
A síntese
O equilíbrio
O acabamento de carrosserie
A invenção
A surpresa
Uma nova perspectiva
Uma nova escala.
§ § §
Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil
§ § §
O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção e pela surpresa.
§ § §
Uma nova perspectiva.
A outra, a de Paolo Uccello criou o naturalismo de apogeu. Era uma ilusão ótica. Os objetos distantes não diminuíam. Era uma lei de aparência. Ora, o momento é de reação à aparência. Reação à cópia. Substituir a perspectiva visual e naturalista por uma perspectiva de outra ordem: sentimental, intelectual, irônica, ingênua.
§ § §
Uma nova escala:
A outra, a de um mundo proporcionado e catalogado com letras nos livros, crianças nos colos. O reclame produzindo letras maiores que torres. E as novas formas da indústria, da viação, da aviação. Postes. Gasômetros Rails. Laboratórios e oficinas técnicas. Vozes e tics de fios e ondas e fulgurações. Estrelas familiarizadas com negativos fotográficos. O correspondente da surpresa física em arte.
A reação contra o assunto invasor, diverso da finalidade. A peça de tese era um arranjo monstruoso. O romance de idéias, uma mistura. O quadro histórico, uma aberração. A escultura eloquente, um pavor sem sentido.
Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.
Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.
A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.
§ § §
Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.
Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e do chá de erva-doce. Um misto de “dorme nenê que o bicho vem pegá” e de equações.
Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.
§ § §
Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.
§ § §
O trabalho da geração futurista foi ciclópico. Acertar o relógio império da literatura nacional.
Realizada essa etapa, o problema é outro. Ser regional e puro em sua época.
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O estado de inocência substituindo o estado de graça que pode ser uma atitude do espírito.
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O contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica.
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A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.
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Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.
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Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.
OSWALD DE ANDRADE
Correio da Manhã, 18 de março de 1924.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

MOSTRA DE REDE DE DORMIR - BRASIL

  •  No Balanço da Rede traz cinquenta modelos. O panorama apresenta desde versões mais primitivas, de origem indígena, como a hamaka, tramada em fibras de tucum, buriti ou carnaúba, até peças mais sofisticadas e contemporâneas, com varandas de crochê ou bordadas. Na exposição, com cenografia de Guilherme Isnard, o artefato aparece entre plantas e objetos de arte popular, a exemplo de esculturas assinadas pelos artistas Resendio e Roberto de Almeida.

     
  • Segundo Camara Cascudo
  • Afirma não haver registro antigo da rede fora da América. O português haveria levado a rede para a Índia e para a África.
  • Não sabe precisar porque a rede surgiu na América e não na África, apesar das semelhantes condições ambientais. Aponta os deslocamentos migratórios dos povos americanos como possível fator para a invenção da rede. "A presença de todos os fatores estabelece a invenção numa e não noutra paragem, possuidora de igualíssimo ambiente ecológico. E ninguém pode fixar o movimento inicial que redundou num conhecimento "novo" e sua aplicação subseqüente, distinções que Ralph Linton fazia entre "descoberta" e "invenção" (p.63).
  • A origem da rede também não é clara e Cascudo discute a possível influência das redes de pescar e de capturar pássaros.
  • Registra o costume de se dormir ao lado de uma fogueira e afirma o significado do fogo, um aliado divino que além de proporcionar calor e vigilância era também um elemento defensivo de alto poder mágico.
  • Lista os materiais usados na fabricação das redes: cipós, tecidos de palmeiras e por fim o algodão. Registra um pequeno vocabulário do uso da rede na língua nhengatu e atesta a veracidade da informação com a seguinte frase: "São depoimentos com meio século de convivência local"

  • Caixa Cultural — Galeria 3. Avenida Almirante Barroso, 25, Centro, ☎ 3980 -3815,  Carioca. Terça a domingo, 10h às 21h. Grátis. Até 23 de fevereiro. A partir de terça (14).