quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

VALE A PENA RELEMBRAR: ENTREVISTA COM CATHERINE DENEUVE

(Entrevista de Antonio Nahud Júnior. Local: auditório da FNAC, em Barcelona, Espanha, 2002. Publicada em jornais de Portugal e Brasil, também faz parte do livro “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”)
Perturbado, com um misto de comoção e nervosismo, observei atentamente a estrela madura e elegante, que um dia a revista Look batizou como “a atriz mais bela do mundo”, concluindo que ela conserva intacto o fascínio aristocrático. Respirei fundo, seguindo seus movimentos e esperando minha hora de iniciar a conversa. O local do nosso encontro está lotado de jornalistas, fotógrafos, convidados e curiosos. A impressão que se tem é que estamos diante de um monumento vivo.
Debutando no cinema aos 14 anos, em papel secundário, CATHERINE DENEUVE projetou-se em 1962, como a protagonista de “O Vício e a Virtude”, do seu pigmalião e amante, Roger Vadim (ex-Bardot e futuro Jane Fonda). Nascida em Paris, 1943, filha de atores de teatro e irmã da também atriz Françoise Dorléac, que morreu num acidente de carro aos 25 anos, ganhou duas vezes o prestigiado prêmio César de melhor atriz (por “O Último Metrô” e “Indochina”), obteve uma nomeação ao Oscar de atriz protagonista e levou mais um prêmio no Festival de Veneza como a rica viúva bêbada e deprimida de “Place Vendôme”.
Ela construiu uma carreira arriscada, selecionada, sólida e brilhante, filmando com grandes cineastas como Demy, Polanski, Buñuel, Monicelli, Truffaut, Téchiné e Manoel de Oliveira, entre outros. Admirada no mundo inteiro, a atriz é de uma sedução marmórea. Um ícone gélido. Resguardada, durante a entrevista limitou-se aos cumprimentos obrigatórios e às respostas curtas e contundentes. O corpo é pequeno, enxuto; os passos curtos e rápidos, equilibrados em saltos altíssimos. Vestida com um Saint-Laurent negro e adornada por uma vistosa manta de pele, conserva sua eterna beleza na expressividade de cada linha do rosto, na sofisticação natural, no talento calculado, no porte de diva.
Gérard Depardieu disse que a senhora é a mulher que ele queria ser, e na verdade muita gente compartilha esse desejo com ele.
Não exagere, mocinho. De qualquer forma, não gosto de ser modelo de ninguém, porque creio que ninguém deve ser modelo de quem quer que seja. Cada um deve parecer consigo mesmo. Mas Gérard, como o senhor, são muito gentis. De qualquer forma, não creio que mereça ser copiada, não sou feliz, embora tenha vivido muitos momentos felizes. Tenho um caráter melancólico.
Talvez invejem a sua beleza intacta que ilumina as telas e capas de revistas desde o final dos anos 1950...
Estou cansada da minha suposta beleza em primeiro plano, principalmente da dita “beleza fria”, que pouco tem a ver comigo. A beleza pode ser um grande fardo, pode ter certeza. Felizmente nunca me consideraram uma estúpida e o consolo que tenho da maturidade, ao perder a beleza física, é que finalmente lembrarão a boa atriz que sempre fui.
Com certeza está brincando. O seu talento sempre foi evidenciado, desde a burguesa prostituta de “A Bela da Tarde”. Voltando ao que desabafou pouco antes, fiquei surpreso com a sua assumida melancolia.

Séverine em "A Bela da Tarde"
Sim, é verdade. Tenho uma tendência muito grande para a melancolia, principalmente quando o passado me vem à memória. Sei que fui muito mimada pela vida, tenho uma bela carreira, mas não creio que exista a felicidade. Existem momentos felizes que passam rápidos.
Eu imagino-a como uma mulher completamente voltada para a sua profissão, e como ela é muito bem sucedida, seria capaz de jurar que nada abala o seu bem-estar.
Não é bem assim. A minha carreira nunca esteve em primeiro plano na minha vida. Sempre me preocupei muito mais com meus amigos e minha família, principalmente meus filhos. Nunca hesitei em deixar de lado uma boa oportunidade profissional por uma questão pessoal, íntima. Eu gosto do mundo do cinema. É o meu trabalho, e faço o melhor que posso, porém a verdadeira felicidade encontro nos meus filhos, nos meus amores e nos meus amigos.
É conhecida por rigorosamente preservar sua intimidade. Nunca fala de seus romances com Truffaut, Vadim, Mastroianni ou David Bailey. Tampouco sobre os seus filhos.
Esforço-me para preservar a minha intimidade e não me arrependo. Eu tenho dificuldades em revelar-me, inclusive nas telas. Há na construção de cada personagem um mistério, uma imagem lutando para não se entregar por inteiro ao público sedento da verdade imediata. Revelar-me é sempre um grande desafio. Não é algo que prefiro, mas é algo que aceito quando é decisivo para a construção do personagem. Estou disponível para isso, embora comece com uma certa relutância.
Ainda lembra-se do seu primeiro sucesso?
Evidente que lembro, mesmo passados quase 40 anos. Eu era bastante nova, tinha uns 21 anos e tive a felicidade de atuar em “Os Guarda-Chuvas do Amor”, premiado com a Palma de Ouro em Cannes... Ah, bons tempos, Demy era único.
É o seu diretor preferido?
Filmei com muitos grandes cineastas. Demy, como Truffaut, não era apenas diretor de filmes, mas também um lutador, um homem de posições fortes. Demy e Truffaut fazem falta no cinema atual.
Vi recentemente “Os Ladrões” e fiquei impressionado com a sua Marie.
Téchiné é um diretor que procura a alma dos personagens. “Os Ladrões” é um filme difícil, que fala da solidão, da incomunicabilidade dos sentidos, dos jogos do desejo. A Marie é uma figura tocada pela tragédia, uma mulher transfigurada pelo desejo, e quando já não há desejo, é mesmo o fim de tudo. É um personagem dramático e solitário.
Acaba de filmar “A Vingança do Mosqueteiro”. Significa que finalmente resolveu trabalhar em Hollywood?
Está brincando, senhor? Na época de “Fome de Amor” recebi propostas tentadoras para atuar em superproduções hollywoodianas, e preferi continuar filmando na Europa. Muitos disseram que era uma decisão irracional, mas foi uma decisão sensata. Lá jamais seria oferecido a uma atriz reconhecida um papel ousado como o de “Os Ladrões”. Hoje, com a idade que tenho, caso estivesse no cinema norte-americano, praticamente não me ofereceriam trabalho, e se o fizessem não seriam papéis dignos.

Qual o seu papel na trama do grande sucesso “Oito Mulheres”?
Tudo se passa numa distante mansão, às vésperas do Natal. Faço Gaby, a esposa do proprietário que foi assassinado e uma das suspeitas do crime. François (Ozon) desejava filmar “As Mulheres”, o clássico de Cukor somente interpretado por atrizes, como Norma Shearer e Joan Crawford, e como não foi possível, agarrou-se com unhas e dentes ao texto teatral de Robert Thomas. Neste filme ele presta um tributo às estrelas dos anos 50. O meu personagem tem um toque de glamour e vulnerabilidade resgatado de Lana Turner.
O elenco conta com Fanny Ardant, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, Danielle Darrieux... Não houve problemas nas filmagens nessa junção de tantas atrizes célebres?
Felizmente, não. As filmagens foram realmente tranqüilas. Nada de atos invejosos, ciumeiras ou atritos. Houve uma extraordinária dinâmica de grupo e não tive em nenhum momento a sensação de estar comprometendo minhas companheiras com a minha atuação. O mesmo aconteceu com todas as atrizes. Afinal, não tínhamos do que reclamar, pois todos os personagens são ricos, fortes, cheios de referências e com seu momento de destaque.
Obrigado por sua atenção e gentileza.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

TEMPLO DE VENUS É REABERTO EM ROMA

O maior templo da Roma antiga foi reaberto ao público no último dia 11 após mais de 20 anos em obras. O anúncio ocorre em meio a uma tempestade política sobre a manutenção dos tesouros artísticos italianos, decorrente do colapso da Casa dos Gladiadores em Pompéia.
O Templo de Vênus e Roma, construído durante o governo do imperador Adriano no século 2 (de 121 a 135), situa-se no coração do Fórum Romano, perto do Coliseu. Do imenso edifício original, com duas entradas, restam dezenas de colunas e partes de duas absides com tetos ornamentados. O templo era visível para os visitantes do Fórum, mas o acesso estava interditado por causa das obras. Até os anos 1980, carros podiam até mesmo estacionar em frente às colunas.
"Restauramos para Roma um dos mais importantes símbolos de poder e grandeza do Império Romano", declarou Claudia Del Monte, arquiteta encarregada da restauração do monumento.
O trabalho foi centralizado, principalmente, na pavimentação do templo de Roma e em melhorias nos vãos de sustentação do teto, enegrecidos pela poluição e limpeza de um esgoto próximo ao local.
Erguida nas ruínas da Domus Aurea - a casa do imperador Nero -, a edificação comporta duas partes unidas: o templo de Vênus, deusa do amor e ancestral mística dos romanos, e o templo de Roma A Eterna, deusa da cidade.
Mesmo fechado ao público, o local vinha sendo utilizado, desde o papa João Paulo II, para cerimônias da Sexta-Feira Santa.
Del Monte explicou que certos aspectos da restauração não teriam sido necessários se o local tivesse sido bem conservado: "Os italianos devem estar conscientes de seu patrimônio e parar de maltratá-lo".

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O HAITI É AQUI - ABANDONO NOS HOSPITAIS DE RONDÔNIA

Não há mais limites para o sofrimento enfrentado por pacientes que buscam ajuda médicas nos hospitais de Rondônia. Cenas de desespero deixam os reporteres sem possibilidades de descrever o descaso e o aviltamento sofrido em função das irresponsabilidades na área da saúde - reprises constantes da morte anunciada e da incopetência administrativa. As falsas estatísticas do "progresso" não revelam a realidade da situação da saúde no Brasil. Rondônia não é um fato isolado, os hospitais são sucatas e os que buscam ajuda morrem pelos corredores imundos dos hospitais públicos. Enquanto isto os salários dos políticos são aumentados a patamares que humilham o trabalhador.

O governador de Rondônia, Confúcio Moura (PMDB), apresentou ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, um dossiê sobre o estado - que ele classificou como precário - de atendimento na emergência do setor hospitalar de Porto Velho. Moura pediu, como prioridade para combater a crise na saúde, a montagem de um hospital de campanha ao lado do Pronto-Socorro João Paulo II. A reunião entre o governo estadual e o ministro ocorreu na sexta-feira em Brasília, junto com a secretária executiva do Ministério da Saúde, Márcia Amaral, e o secretário de Estado da Saúde, Alexandre Muller.
Na terça-feira da semana passada, o governador visitou o hospital João Paulo II, unidade que recebe uma média de 200 pacientes diários, o que totaliza aproximadamente 6 mil atendimentos por mês. Atualmente, o hospital possui 137 leitos comuns e 10 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A ideia de montar um novo hospital aumentaria em 100 o número de leitos disponíveis à população. Os pacientes seriam atendidos por médicos do Estado e das Forças Armadas.
Na terça-feira, representantes dos ministérios da Saúde, Defesa e Integração Nacional devem chegar a Porto Velho para realizar um diagnóstico do sistema de saúde.

domingo, 9 de janeiro de 2011

PESAR


O mundo de constante vigilância aprisiona
meu corpo e sentimentos.
Poderia estar em outro lugar,
porém estou aqui.
Se fosse possível passar despercebido,
eu mudaria as imagens,
mesmo àquelas que pareço ser feliz.

Vicente de Percia

CESARE PAVESE



Uma Recordação
Não há homem que consiga deixar uma marca nela. Todo o passado se dilui num sonho como uma rua na manhã e só fica ela. Se não fosse a testa franzida por um momento pareceria atónita. As maçãs do rosto têm sempre um sorriso. Também não se acumulam os dias no seu rosto, nem alteram o sorriso leve que irradia sobre todas as coisas. Com uma firmeza dura faz cada coisa como se fosse a primeira; no entanto vive-a até ao último momento. O seu corpo firme abre-se, o olhar recolhido, a uma voz doce e algo rouca: à voz dum homem cansado. E nenhum cansaço a toca. Quando se lhe olha para a boca, semicerra os olhos à espera: ninguém se arriscaria. Muitos homens conhecem o seu ambíguo sorriso ou a súbita ruga. Se homem existiu que a soube queixosa, humilhada de amor, paga dia após dia, ignorando dela por quem vive hoje. Caminhando pela rua sorri sozinha o sorriso mais ambíguo.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa' Tradução de Carlos Leite

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

COMENTÁRIOS SOBRE A 29ª BIENAL INTERNACIONAL DE ARTE DE SÃO PAULO


Arnaldo Jabor
Ao apagar das luzes, fui ver a Bienal. Quase não escrevo sobre ela, mas não aguentei, apesar de não ser crítico de arte. A sensação dominante quer tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Saí triste. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser "arte", vergonha de provocar sentimentos de prazer. A fruição poética é impedida, como se o prazer fosse uma coisa reacionária, "alienada", ignorando o "mal do mundo", que tem de ser esfregado na cara do espectador para que ele não esqueça o horror que nos assola. Há um propósito de evitar qualquer transcendência artística. Um crítico escreveu: "O paradigma romântico foi desmantelado no século 20, porque apresenta a arte como algo universal, acima da realidade social e política".Ou seja, a razão maior da arte, que é justamente esse mistério que aponta para "as coisas vagas" (como escreveu Paul Valéry) sem as quais não há reflexão poética ou filosófica, foi jogada fora, em nome de uma racionalização criada para substituir nossa impotência política real.Fui andando pelo pavilhão maravilhoso do Niemeyer, pensando que o edifício "modernista" era superior a qualquer panfletinho ali exposto.Pensei que o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade cultural, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além do alcance crítico de qualquer "denúncia" artística. Não adianta mais "chocar" ou "conscientizar" ninguém. Nada que haja na Bienal nos choca mais que homens-bomba explodindo discotecas ou a fome na África ou a lama das favelas e periferias. Nada. Os gestos enraivecidos da antiarte nem arranham a pele do mundo. Nesta Bienal vi um parque temático de deprimidos, um muro de lamentações inúteis - a melancolia como "denúncia" de uma vida sem solução, quando a grande critica ao Ocidente é feita pelos terroristas islâmicos. A infeliz sentença de Stockhausen chamando o 11 de Setembro de "obra de arte" tem sim um bruto fundo de verdade. Nada pode explicar ou evitar aquele horror. Nunca imaginávamos que o século 21 seria parecido com o século 7, quando Maomé se declarou o único profeta. Intelectuais e artistas vivem em pânico, pois o tempo de sínteses se extinguiu. Os acontecimentos estão incompreensíveis e, no entanto, óbvios demais. Claro que os artistas contemporâneos não podem ignorar o horror do mundo e têm de acusar o golpe. Sim, mas mesmo em tempos terríveis, há que se buscar alguma transcendência, esperança e vitalidade.Tropeçando em perigosas "instalações", pensei que a morte da "aura" da arte é menos aceita do que pensávamos. Hoje, muitos artistas se vêem como ex-profetas abandonados e passaram a usar a luz da "aura" como um halo, como uma coroa de espinhos para sua solidão. O artista quer virar obra de arte. E tudo faz para esquecer seu abandono, mesmo que seja expor seus excrementos numa latinha. E vemos que ele não abriu mão da representação, mas cultiva-a ao avesso da beleza, como uma doença favorita. Ele é a representação, ele é a paisagem.Acho que nesta desistência da arte transcendental há um complexo de inferioridade diante da tecnociência, que está avassalando nossas vidas. Nietzsche não concordaria: "A arte é mais poderosa que a Ciência, pois ela quer a vida, enquanto o objetivo final do conhecimento é o aniquilamento." Nietzsche escreveu isso no fim do século passado, querendo dizer que, por trás da busca científica e racional da verdade, mora o desejo da morte, de esgotamento da vida, por uma letal explicação de tudo.Claro que não tenho nível para aprofundar este tema, mas temos hoje esta metástase digital hipertecnológica ao lado de um indigente, tuberculoso desempenho artístico do mundo. Temos de um lado o mercantilismo escroto de Hollywood, dos teatrões, das galerias chics ou dos best-sellers. Do outro, a solidão melancólica das Documenta, os bodões negros dos guetos da revolta "oficial".Sem dúvida, a grandeza da arte contemporânea é de se misturar à vida, sem suporte, mas sem negá-la de fora, atacando-a com rancor por sua falta de sentido claro. Nisso, o WikiLeaks mata a pau.Movidos pela ideia socrática de que a arte tem de ser subordinada à Razão, os artistas caíram numa denúncia melancólica das impossibilidades. Não há futuro para esta idéia de arte , seja ela digital, mercantil, iluminista ou o cacete a quatro. A celebração dionisíaca do existir não pode ser considerada frescura ou alienação.Prevaleceu a vertente "triste" do modernismo, a vertente "conceitual" que joga sobre o "mal do mundo" apenas uma ideologia nevoenta de condenações sem nome, apenas uma arte enojada contra o mal-estar da civilização.Por que a melancolia seria mais profunda que a alegria? Como explicar Fred Astaire, Busby Berkeley, "Cantando na Chuva', a arte pop, o jazz? Depois do pop, será que uma "Aids conceitual" não atacou tudo, depauperando a luta? Será que não se esgotou a denúncia do feio pelo "mais feio", que odeia a vida real, por adesão a um impossível finalismo? O "novo" não poderia ser um "belo" que denuncia , com sua luz, a injusta vida?Precisamos de arte, como uvas e frutos e danças e como um coro de Silenos, de Dionísios, pois a ciência e a razão estão querendo chegar até os ossos da "essência". A arte é a ilusão aceitada, a clareza feliz de que a aparência é o lugar do humano e que só nos resta essa hipótese de felicidade num planeta gelado. Não a arte-espetáculo, mercadoria de ver, mas a arte como ritual de embelezamento da vida. Nietzsche: "A ilusão é a essência em que o homem se criou."Lembrei-me então de uma frase de Stravinsky: "A obra de arte deve ser exaltante". E uma de Artaud: "A arte não é a imitação da vida; a vida é que é a imitação de ?algo? transcendental com que a arte nos põe em contato". Por isso, não gostei da Bienal.Fui andando pelo pavilhão maravilhoso do Niemeyer, pensando que o edifício "modernista" era superior a qualquer panfletinho ali exposto.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

PATAGÔNIA À VENDA

Por r, do Asian Times
Tradução: Caia Fittipaldi, Vila Vudu Imagem:
Clara P. GlaPerito Moreno.

A “deserta e estéril” Patagônia (na avaliação inicial de Charles Darwin) são nada menos que 230 mil quilômetros quadrados de bacias de rios que desaguam no Atlântico. São 4 mil quilômetros quadrados de gelo continental e glaciares – além de uma das maiores reservas de água doce do planeta.
Vivemos hoje os estágios avançados de uma guerra global sem fim à caça de petróleo e gás (há dos dois, aliás, na Patagônia). Relatório crucial da Unesco já avisava, em 2000, que nos cinquenta anos seguintes praticamente todos os seres que habitam o planeta enfrentariam problemas relacionados à falta de água ou à contaminação de grandes massas de água. Quando eclodir a Grande Guerra das Águas – esperada para 2020 – essa Patagônia de lagos azuis translúcidos e glaciares milenares será posta a prêmio; ter água implicará riqueza infinitamente maior do que, hoje, ter petróleo ou gás.
Mentes analítico-bélicas no Pentágono e na Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA não conseguirão deter os sonhos molhados de uma Patagônia secessionista, que será uma espécie de última Arábia Saudita líquida da Terra. População rarefeita (menos de 2 milhões de habitantes), com toda aquela água, abundantíssima energia hidrelétrica e 80% das reservas de petróleo e gás natural da Argentina. O grau de descaso e negligência de que se ressentem os habitantes da Patagônia, em relação a Buenos Aires, pode ser comparado ao que se sente no Baluquistão, no Paquistão, em relação a Islamabad. Pesquisas recentes mostraram que o desejo de viver numa Patagônia independente sempre está acima de 50% (e chega a 78% entre os mais jovens e os desempregados).
A descrição de uma rota de colisão e desastre, de quatro séculos de “desenvolvimento” patagônico, teria aproximadamente o seguinte feitio. No começo foram os povos nativos. Depois vieram os navegadores ibéricos, os piratas ingleses, todos os tipos de cientistas europeus aplicados, os missionários religiosos, os exilados que sonhavam fazer da Patagônia uma versão austral da América. Então chegaram os latifundiários – do Chile ou da Holanda, do País de Gales ou da Polônia, da Escócia ou Dinamarca.
Livrar-se das populações nativas foi colonialismo nu e cru. Os patagônios do norte foram exterminados pela infame e eufemística Campanha do Deserto, de 1879; os do sul foram convertidos, à força, em força de trabalho para o agro-business. E então, nos anos 1990, chegaram os bilionários do “primeiro mundo”.
Segundo o exército, mais de 10% do território argentino pertence a estrangeiros.As vendas prosseguem. E não há contole algum sobre os projetos dos controladores
Como sabem todos os bilionários encantados com a vida selvagem e seus executivos enfarpelados, a venda da Patagônia começou em 1996, no governo do ultra-neoliberal Carlos Menem. Em suas próprias palavras, Menem desejava vender “o excesso de terra” do país que presidia. Não há legislação federal, na Argentina, que regule a venda de terras a estrangeiros. Só no final da década de 1990, venderam-se mais de 8 milhões de hectares de terra. Segundo o exército argentino, mais de 10% do território nacional pertence hoje a estrangeiros – e as vendas prosseguem. O problema não é a venda; o problema é o controle, virtualmente nenhum, sobre os projetos propostos para investimento.
Se você for abonado, ainda comprará o que quiser, onde quiser – inclusive as áreas dos espetaculares parques nacionais. Cada província fixa regras próprias. Se você encontrar o funcionário certo e levar consigo a mala certa carregada com os dólares certos, o mundo – à moda de Tony Montana[2] – é seu. Não surpreende que praticamente todos os moradores das províncias de Rio Negro ou Santa Cruz digam que o gabinete do prefeito é a principal agência de venda de terras da cidade. Os mesmos moradores inevitavelmente lamentam que a Patagônia esteja sendo comprada por estrangeiros – de Ted Turner à família Benetton. E duas das maiores empresas de petróleo da Patagônia pertencem a estrangeiros; uma delas, estatal, foi vendida à Espanha; a outra, privada, à Petrobrás brasileira.
Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse – versão local, no fim do mundo – são Tompkins, Turner, Lewis e Benetton. São a safra do século 21 dos conquistadores, aventureiros e piratas da Patagônia – de Francis Drake e George Newbery a Butch Cassidy e Sundance Kid (o rancho deles continua lá, em Cholilla, resto de pueblo que combinaria perfeitamente no cenário das áreas mais miseráveis do Novo México). Os estrangeiros sempre sonharam com esse fim do mundo. A beleza violenta desse lugar – como adiante se verá – leva às lágrimas muito homem feito.
Doug Tompkins é guru “verde” californiano, fundador de duas organizações, The North Face e Esprit. Na Patagônia é conhecido como “o dono da água”. É o maior proprietário privado de recursos naturais da Patagônia chilena, e da região de Corrientes, na Argentina; e é dono de várias estâncias, todas estrategicamente distribuídas pelo mapa. Quando Tompkins bateu os olhos pela primeira vez no sul da Patagônia, do lado chileno, e depois no noroeste da Patagônia, do lado argentino, em 1961, chorou feito bebê. Depois voltou – e pôs-se a comprar.
Ted Turner, fundador da CNN e fanático por pesca de trutas e dono de uma villa espetacular, em área de 5 mil hectares, no sul da província de Neuquen, de onde controla completamente o acesso a um dos rios mais virgens da Patagônia. Tem outra propriedade de 35 mil hectares na mesma província, mais outra, de 5 mil hectares, na Terra do Fogo. Ted só comprou terra nos EUA e na Patagônia.
Villa Traful é um vale verde, privado, que cerca o espetacular lago de mesmo nome – e faz pensar que dessa matéria são feitos todos os Xangrilás, antes do advento do Facebook. Comprar terras em Traful, nos anos 1990s, era sopa. Quem sabia jogar o jogo rapidamente virou proprietário da terra pública em torno do lago. Agora, a festa acabou. Só Jorge Sobisch, de família de emigrados croatas, ex-governador da província de Neuquen que quer ser presidente, já praticamente vende tudo, todos os dias, para gigantescas massas de turistas.
Mas, acima de tudo e todos, toda essa terra pertence a Ted Turner. Turner é proprietário de La Primavera, estância cinematográfica de 5 mil hectares na boca do rio Traful. Ali pesca, como abençoado, a melhor truta e o melhor salmão que a natureza consegue gerar. Jane Fonda era doida por La Primavera. Tompkins era hóspede frequente, além de George Bush pai e Henry Kissinger. A área é policiada por satélite. Estive lá no inverno, tudo vazio e gelado. Assim, não tive o prazer de navegar em águas que pertencem a Ted Turner. Claro. Ted jamais se deixa ver na Vila Traful – mas sabe-se que visita a estância La Primavera algumas vezes por ano.
Assim árvores milenares até onde a vista alcança, abundam os sinais de queLewissó pensa, mesmo, em construir um Estado de fato, dentro do Estado
La Primavera foi fundada, de fato, por um dentista norte-americano e ex-vice cônsul dos EUA em Buenos Aires, George Newbery, em 1894. George e Ralph Newbery (pai do famoso aviador Jorge, cujo nome hoje decora o portal de entrada de um dos aeroportos de Buenos Aires) convenceram-se de que, para povoar a Patagônia, o melhor seria importar cowboys do Texas.
Assim, já desde o início do século 20, temia-se, em todo o norte da Patagônia, uma onda de colonização yankee. Mas a fonte de cowboys exilados do Texas logo secou. La Primavera foi vendida para um inglês, depois para um francês, depois para um argentino, até que, finalmente, pousou no colo de Ted Turner, que andava profundamente envolvido num projeto conservacionista – ou expansão territorial – de 2 milhões de hectares em Montana, Novo México e Nebraska. Mas, sobre a Patagônia, ele jamais negociou nem cedeu um palmo. Coisas de pescador de trutas.
Brit Joseph Lewis, dono da 6ª maior fortuna do Reino Unido, conhecido na Patagônia como “Tio Joe”, por causa de incontrolável mania de fazer filantropia, controla todos os 14 mil hectares de terra em volta do sublime, indescritível Lago Escondido, a 92 km de Bariloche, junto à fronteira com o Chile. Controla também toda a bacia do premiado rio Azur. O ultradiscreto Lewis, que vive entre Londres, Orlando, as Bahamas e a Patagônia é alto tubarão da especulação financeira, além de acionista da pesquisa genética. As garras de seu Tavistock Group estão pousadas sobre tudo, do petróleo e gás da Sibéria, aos sapatos e roupas marcas Puma e Gottex.
A Xangrilá andino-patagônica de Lewis não fica longe de El Bolson, a meca dos hippies argentinos nos anos 1970s, convertida, por transmigração dos espíritos, na primeira prefeitura ecológica do início dos anos 1990s. Nas florestas, ao estilo Tolkien, há árvores multimilenares, os alerces, de madeira lahuan – os organismos vivos mais antigos que há na Argentina, os terceiros entre os mais antigos do planeta. Assim como se veem alerces por todos os lados e até onde a vista alcança, também se veem até onde a vista alcança sinais de que, hoje, Lewis só pensa, mesmo, em fazer o trabalho que caberia às autoridades provinciais e nacionais – quer dizer: em construir um Estado de fato, dentro do Estado.
Em apenas alguns poucos anos, Lewis comprou terras em metragem equivalente a três quartos da cidade de Buenos Aires – mas sob a forma de florestas milenares, glaciares, lagos e rios intocados. Por pouco, não comprou o próprio lago, o que a lei não permitiu. Mas, sim, comprou toda a terra à volta do lago, o que significa que, se você quiser chegar até o lago, tem de viajar por 18 km, em estrada dentro de sua propriedade. Conhecer essa Xangrilá só é possível com ajuda do alto, ou seja, dos guardas de Lewis. Há suspeitas de que Lewis tenha tentado comprar as nascentes de vários rios da região. E, considerando que o Grupo Tavistock está pesadamente envolvido em pesquisa genética e biotecnologia, há suspeitas, também, de que já esteja extraindo e exportando as espécies mais raras que vivem (viviam) na Cordillera.